Hacker, não: geek
Bastou um burburinho na internet, como estratégia de marketing, e o paulistano Breno Masi, de 27 anos, conquistou reconhecimento instantâneo. Quase da noite para o dia, incluiu em sua modesta agenda celebridades como Faustão, Xuxa, Michael Schumacher, Lula e até o presidente de Angola. Por quê? Ele se transformou num geek – nome dado aos que são verdadeiras feras do mundo da tecnologia e que rejeitam a alcunha de hacker –, ao ser um dos primeiros do mundo a “desbloquear” o badalado iPhone, alcançando depois, sozinho, o mesmo trunfo em relação à versão 3G do smartphone da Apple.
Breno é formado em Ciência da Computação, mas seu interesse por informática começou bem antes da faculdade. Aos 12 anos, fazia pequenos reparos em computadores e instação de softwares. Aos 17, montou sua primeira empresa. “No início, eu trabalhava apenas com o Windows, na montagem de redes. Em seguida, fiz trabalhos para a IBM e Compaq. Com o desbloqueio do iPhone, comecei a me apaixonar pelo mundo da Apple”, conta. A história que mudou para sempre a vida do paulistano começou em 2007 com um desafio proposto por seu médico, que havia adquirido o iPhone nos EUA.
À prestação
Na época do lançamento do aparelho, a Apple tinha um contrato de exclusividade com a operadora telefônica AT&T e, por isso, o telefone não podia ser usado onde não havia a multinacional. “Avisei ao meu médico que, na tentativa do desbloqueio, poderia queimar o aparelho. O doutor não se importou e ainda brincou dizendo que, caso estragasse, poderia usar o iPhone como peso de papel”, diverte-se Breno.
A empreitada exigiu dedicação total e vários dias de trabalho até que Breno compreendesse o que deveria ser feito para o desbloqueio. “Eu percebi logo de cara que precisaria comprar um MacBook (notebook da Apple) para realizar o desbloqueio. Como não tinha muita grana, comprei no meu cartão de crédito e no da minha noiva, parcelando em várias prestações”, lembra. Após uma semana de noites insones, litros de refrigerante, salgadinhos e muita pesquisa na internet, ele conseguiu colocar o aparelho para funcionar.
O feito foi registrado em vídeo e postado no Youtube, transformando Breno numa celebridade. O primeiro desbloqueio do aparelho havia sido feito pelo americano George Hotz. Breno afirma ter “bobeado” durante o trabalho, porque foi superado pelo americano por uma diferença de poucas horas. Este tempo, entretanto, não foi determinante na vida profissional de Breno, que não aceita ser chamado de hacker.
Ele é taxativo ao justificar a recusa, ressaltando que hacker é uma definição muito pejorativa, especialmente no Brasil, onde virou sinônimo de ladrão, de contraventor do meio da informática. “Prefiro me definir como um geek, um curioso da informática”, argumenta. A expressão de origem inglesa serve para identificar o que seria uma nova geração dos conhecidos nerds. Porém, ao contrário deles, os geeks são mais descolados, comunicativos e com o interesse voltado especificamente para o mundo da informática
Sucesso virtual
Poucas horas após a publicação do vídeo do desbloqueio no Youtube, recorda Breno, começaram a surgir os primeiros pedidos de desbloqueio de aparelhos espalhados pelo Brasil. “Não imaginei que isso pudesse se transformar num negócio”, afirma. Mas ele calcula que desbloqueou mais de mil aparelhos só na primeira semana depois da divulgação. Seguindo os conselhos de um tio, Breno montou uma pequena empresa em sua casa e passou a cobrar R$600 para realizar o serviço, que deu muitos resultados.
Ele garante que não fazia nada ilegal. “Um dos primeiros clientes que tive foi um juiz e ele me explicou sobre a lei do desbloqueio, me tranquilizando”, pondera. Todavia, Breno acabou recebendo uma “visita” de representantes da Apple. “Eles pensavam que eu alterava o chip da AT&T para que ele funcionasse no Brasil. Quando viram que eu fazia o aparelho reconhecer chips de operadoras daqui, ficou tudo certo e me deixaram em paz”, conta.
Em 2008, Steve Jobs, presidente da Apple, anunciou o lançamento do iPhone 3G e afirmou que o novo modelo era impossível de ser desbloqueado. Desta vez, com mais preparo e experiência, Breno conseguiu ser o primeiro do mundo a quebrar o bloqueio do aparelho. O feito foi notícia na imprensa.sa nacional e mundial e elevou ainda mais a notoriedade do brasileiro.
Celebridades
Várias celebridades solicitaram os serviços de Breno, o que lhe rendeu boas histórias e encontros inesquecíveis. Faustão, Angélica e Galvão Bueno foram alguns dos clientes ilustres atendidos por ele. “Recebi uma ligação do Martinho da Vila em plena madrugada, pedindo pra liberar o aparelho dele. A Xuxa também me ligou pedindo o mesmo. Achei que era trote!” Uma das histórias mais divertidas envolveu o presidente de Angola. Breno recebeu uma ligação de representantes do governo angolano solicitando que ele fosse ao país para desbloquear alguns aparelhos da presidência.
“Ir até a África? Achei que era muita loucura e neguei o convite, mesmo sendo uma viagem com tudo pago”, ressalta. Dias depois, para minha surpresa, uma comitiva do governo angolano apareceu na sua casa em São Paulo. “Foi fantástico. Liberei cerca de dez aparelhos e recusei o pagamento pelo serviço, mas acabei recebendo muitos presentes”, lembra.
História também marcante foi o encontro de Breno com o campeão de Fórmula 1, Michael Schumacher. “Recebi a ligação de um assessor, dizendo que o piloto estava no Brasil e queria me contratar para desbloquear seu telefone. Achei que era mentira e não dei muita importância. Até que o próprio Schumacher falou comigo ao telefone!”, orgulha-se. Num jatinho fretado pelo alemão, Breno foi até Florianópolis, onde aconteceria uma corrida que reuniu grandes nomes do automobilismo. Depois de assistir à prova e desbloquear o aparelho, Breno ganhou um abraço e o capacete do ídolo, que fez questão de pagar pelo serviço.
Aplicativos
Mesmo famoso, Breno seguiu o conselho de sua mãe e decidiu procurar um trabalho “mais normal”. Em parceria com o amigo Ricardo Longo, fundou a Fingertips, empresa especializada no desenvolvimento de aplicativos para iPhone. “De início, criamos uma tabelinha virtual, para controle do ciclo menstrual. Em seguida, lançamos um jogo da velha e um dos nossos últimos produtos foi um aplicativo bancário para o Bradesco”, conta.
O geek afirma que seus dias de desbloqueador de iPhone já terminaram. Foram mais de 6 mil aparelhos desbloqueados até meados de 2008, quando interrompeu a atividade. “Às vezes, ainda tenho vontade, mas hoje meu foco é a criação de aplicativos para o aparelho”, garante. Toda essa aventura transformou o jovem em um fanático pelos produtos da Apple. Tamanho é seu entusiasmo pelos produtos da empresa norte-americana que acabou ganhando o apelido de MacMasi.
“São aparelhos fantásticos. Até a embalagem dos produtos é diferenciada”, diz Breno, ao analisar as criações da Apple. Apesar de ter conhecido pilotos, atores, jogadores de futebol e chefes de Estado, Breno ainda carrega uma frustração. “Tentei me encontrar com o Steve Jobs em duas ocasiões, mas não foi possível”, lamenta. O que ele gostaria de dizer ao pai do iPhone? “Queria agradecer por ter criado o iPhone, que me abriu tantas portas, e parabenizar pelo trabalho bem feito”, conclui MacMasi.