Nº 30 nov/dez 2014

Entrevista

Pérola Cultivada

"Gosto da minha profissão no que ela é como profissão, da vida a personagens que não sou eu."
 
Ione Maria Nascimento  
 
grande público conheceria Valentina em 1996. Na tela da Rede Globo, ela era a mocinha de Anjo de Mim, novela das 18h, escrita por Walther Negrão. Nos trajes épicos da personagem, a então atriz estreante Carolina Kasting se esforçava para transformar texto em atuação poética. No frescor de seus 21 anos, dividia o nervosismo de iniciante ao lado do já tarimbado Tony Ramos, seu par romântico. Em sua postura, as nítidas memórias corporais de alguém já familiarizada com as artes. 
 
Isso porque, aos 14 anos, a adolescente apaixonada por dança resolveu deixar sua cidade natal, Florianópolis (SC), para estudar balé em Curitiba (PR). As sapatilhas logo deram espaço à moda, uma paixão que ela carrega até hoje. E num universo em que um passo leva a outro, naquele mesmo ano a jovem despontou como uma das finalistas de um concurso de modelo. 
 
Mas foi estudando artes cênicas e emprestando seu talento a personas inventadas que Carolina Kasting descobriu a profissão que abraça há quase 20 anos e, com ela, o prazer de ser um instrumento da cultura. 
 
“Tenho a nítida impressão de que as personagens escolhem a gente, não é a gente quem as escolhe”, diz, acrescentando que seu trabalho é uma mistura dessa presença do “outro” com as próprias opções. 
 
Revelar-se é algo que Carolina Kasting faz com sinceridade e maestria, pois mostra-se como a atriz dedicada e competente que é, densa nas atitudes, avaliações ou opiniões; alguém que sabe bem a quê veio. Ao mesmo tempo, é a mulher doce e romântica que surge com força nas imagens captadas pelo fotógrafo Rodrigo Castro, no charmoso Gávea Tropical Boutique Hotel, no Rio de Janeiro (RJ).  
 
Revista MRV : Conte sobre a nova peça que você está ensaiando e que ainda nem tem nome ... 
 
Carolina Kasting: A peça retrata o conhecidíssimo “triângulo de piano” do século XIX, formado por Clara Schumann, seu marido, Robert Schumann, e o amigo Johannes Brahms. Eles tocaram e compuseram juntos, formavam um trio de amizade e amor. Schumann tinha umas loucuras e até tentou suicídio. Brahms foi quem ajudou Clara. É uma oportunidade incrível trazer uma personagem tão famosa e importante da música clássica para o teatro. A direção é do Tadeu Aguiar, num projeto muito cuidadoso, bem elaborado, com música ao vivo durante a peça. Entramos em cartaz no Teatro Alfa (São Paulo) em janeiro. 

Como é trabalhar temáticas densas em uma cultura que está sempre tentando vender o mais fácil de digerir? 
 
Outro dia, estava indo dormir e veio aquela frase à minha cabeça: “As personagens escolhem a gente, não é a gente quem escolhe as personagens”. Minha trajetória vem permeada de personagens fora do padrão “mais fácil entendimento do público”. São personagens que exigem bastante. É um pouco a mistura das escolhas que faço com as personagens que me encontram. Com a direção de meu marido, Maurício Grecco, acabei de fazer a peça Conferência dos Pássaros (RJ), que tem um texto superdifícil. A Clara Schumann é também uma personagem que exige um pouco mais do público, no sentido de que a peça não é só entretenimento, traz uma proposta mais artística. 
 
Qual é a sua vivência com a música clássica? 
 
No Brasil, a música clássica é muito importante, temos pianistas e maestros excelentes, num padrão internacional. Tenho uma história muito bonita com a música clássica. Fui bailarina, então, além da música, conhecia os balés. Meu pai ama música clássica, e por isso cresci ouvindo essa música no rádio. Até hoje ouço. Minha filha às vezes reclama, mas eu adoro. 
 
Conferência dos Pássaros entrará em cartaz novamente? 
 
Queremos levá-la para São Paulo, em dobradinha com a peça Ogroleto, um texto da Suzanne Lebeau. É outro projeto que tenho com o Maurício, com ele em cena. A gente já esteve em cartaz no Rio e foi o maior sucesso, ganhamos sete prêmios. É um texto sobre o mito do ogro, uma figura muito frequente nas histórias, no folclore dos países nórdicos – a do gigante que come gente. A peça conta a história de um menino que descobre que o pai é ogro; e o ogro se vê num dilema entre a sua natureza selvagem e a civilizada. É um texto lindo. 
 
Você tem experiência em cinema, teatro e TV, mas pretende se dedicar mais ao teatro agora? Essa escolha é possível para o ator? 
 
Eu realmente gosto de todos esses meios, os três são importantes para mim. Acho que o teatro é a arte do ator, nele penso o que quero fazer, falar, o porquê quero montar aquele texto. Tenho maior liberdade artística, porque encaro dessa maneira. Acho importante no sentido de que no teatro não existe só a preocupação de se atingir tantas pessoas, mas a de atingir mais profundamente o público que for ver a peça. Também amo fazer televisão, tenho quase 20 anos de carreira. Adoro a agilidade, o pique da televisão, onde um dia não é igual ao outro. Já o cinema eu adoro, é uma paixão, gostaria de fazer mais. Fiz apenas um filme (Sonhos Tropicais, 2001) e fui premiada no Festival de Cinema de Recife (2002). Foi muito bonito esse momento, pois escolhi aquele filme porque a personagem era um superdesafio, tinha que falar iídiche (língua falada por parte dos judeus). 
 
Na TV, você recentemente participou de Malhação, novela da Globo, vivendo a mãe de uma adolescente grávida. Como uma atriz experiente, como você lida com o universo de atores iniciantes, típico, por exemplo, de Malhação? 
 
Nunca fiz essa separação. Sempre contracenei com atores mais e menos experientes do que eu. Acho que o material de trabalho do ator é o humano; então, você lida com seres humanos da mesma forma. Seja a Maria Luísa Campos, com quem contracenei fazendo a mãe dela, seja com um ator como o Fagundes (Antônio) ou o Tony (Ramos). Para mim, Malhação sempre foi muito legal. Fiz a novela quando estava no início da minha carreira. Entrei numa participação especial, mas a personagem ficou fixa; depois fiz par romântico com o Daniel Boaventura na temporada de 2007/2008, que foi muito divertida. Agora, Malhação tem uma particularidade. O diretor Luís Henrique Rios fez da novela um lugar de aprendizado. Os atores fazem luta, cantam, dançam. Eles realmente estão tendo uma oportunidade rara no Brasil. Acho fantástico, porque o ator não para nunca de treinar, é uma profissão que não tem aposentadoria (risos). 
 
E é difícil ser ator, Carolina? Normalmente, vemos apenas o lado glamuroso da carreira, mas o que é a verdade da profissão? 
 
Eu sempre fui muito romântica, gosto da minha profissão no que ela é como profissão, dar vida a personagens que não sou eu. O glamour que o público percebe é importante, mas eu passei a ter contato com ele só depois de um certo tempo de carreira. A sociedade mudou muito e, realmente, hoje, para o público, o glamour da profissão é maior. Porém, o dia a dia do ator não é muito glamuroso, porque a gente trabalha muito, é um trabalho árduo. É importante que o público saiba disso, desse ofício que não é só aparecer nas capas de revistas, com roupas da última moda, mas é isso também. E acho que isso é legal, porque gosto dessa comunicação com público. Vivemos o boom das redes sociais. Demorei para entrar nessa (risos), mas, quando entrei, achei incrível a possibilidade de me comunicar com o público sem intermediários, sem uma emissora, sem estúdio. Você fala, as pessoas ouvem, leem, veem fotos, posts. Claro que você tem que saber usar de uma forma bacana. 

No Facebook, você tem uma página na qual se declara apaixonada por pé e ainda posta fotos de seus pés... 
 
Estudei fotografia, gosto de fotografar; então, tenho um projeto no qual exercito esse meu lado nas redes sociais. É o My Daily Feet, que é como um diário imagético. Nele registro os meus pés, no meu cotidiano. Tive um retorno superpositivo do público e até descobri que algumas revistas recebem pedidos de fotos de pés das atrizes (risos). Eu não sabia que estava entregando para o meu público uma coisa que é importante para eles. Calhou uma coisa com a outra e fiquei superfeliz. Fico esperando o próximo trabalho, a próxima viagem para fotografar os meus pés. 
 
Sua página tem vários comentários sobre esse trabalho... Você tinha consciência de que atrairia o público, inclusive podólatra? 
 
Não tinha consciência nenhuma. Foi a ideia que tive para juntar a minha fotografia a essa era da selfie. Mas eu tenho realmente uma história com os pés, porque fui bailarina e sempre observei os meus pés, e também reparo os das pessoas que conheço. Mas não sou podólatra. Tenho um público também que gosta da página para ver o meu trabalho, porque não posto nada que não seja relevante em termos artísticos. E os podólatras são assanhados, né? Já recebi pedidos de casamento, achei divertido (risos), porém também lembro a eles: “Olha, gente, não é uma página de podolatria”. Às vezes, um deles fica bravo e comenta: “Danada, você é podólatra sim, não discute comigo” (risos). E tudo bem, é o diálogo com o público, obrigação do artista. Ter a oportunidade de mostrar algo diferente é importante, porque eles não esperavam que uma atriz conhecida como eu fosse fotografar os pés e colocar as imagens nas redes sociais. Fico muito feliz de trazer algo novo, porque se todo mundo faz sempre a mesma coisa a gente não leva o mundo pra frente. 
 
No Facebook estão também alguns textos seus. Qual é a sua relação com a escrita? 
 
É algo ainda um pouco obscuro para mim, sabe? Quando adolescente, eu escrevia poesias. Tenho muitos cadernos de poesia, mas sempre achei o trabalho ruim, e, por isso, não entrei nesse universo. Mas leio muito, porque amo literatura; sou apaixonada por Victor Hugo, Dostoiévski, Tolstói. No Facebook, tenho um texto que explica o porquê fotografo os meus pés, que foi sugerido por uma fã. Não penso em ter um trabalho só de escrita. Para mim, esse trabalho existe muito em função da imagem, ou relacionado ao meu momento pessoal. 
 
Tocando nessa vida pessoal, você e Maurício estão casados há 14 anos e têm uma filha (Cora) de nove anos. Algum tempero especial para manter essa união? 
 
O principal é o diálogo sincero, essencial tanto para criação dos filhos quanto para o amor entre os cônjuges. As pessoas precisam se ouvir. Uma relação de 14 anos não é isenta de momentos difíceis, mas é óbvio que você tem que superá-los, para investir no amor. Como hoje é tudo muito rápido e fácil, entre aspas, as pessoas pulam de uma relação para outra sem se debruçarem sobre ela. Eu e o Maurício temos uma relação inclusive profissional e, se não dialogarmos, essa relação não é possível, porque os obstáculos surgem. Então, acho que é investir na relação em todos os sentidos: ser gentil, romântico, amável, agradável com o outro, preparar surpresas, fazer coisas diferentes, viagens, tudo que pode elevar a um nível superior aquela relação humana. 

Entrevista_1

Carolina Kasting


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