Segura peão!
l Rosângela Rezende
Cinco dias por semana, o advogado e funcionário público Élio Andrade, 50 anos, veste sua calça jeans justa, camisa xadrez, cinto com fivela grande, bota de couro de avestruz e chapéu de pêlo de castor, de preferência tudo americano. Assim paramentado, frequenta as boates country de São Paulo, para dançar com os amigos, beber uísque e apreciar shows de música sertaneja. Isso, se não tiver nenhum rodeio sendo realizado, pois, neste caso, Andrade dedica as noites de sexta e o final de semana para assistir ao empolgante embate entre o peão e o touro, seu esporte número um há 35 anos. “Ser caubói é um estilo de vida”, afirma o advogado, que para trabalhar só elimina o chapéu de seu figurino habitual.
Nestas mais de três décadas, Andrade já perdeu a conta de quantos rodeios frequentou. Só neste ano, foram 11 em seis estados diferentes. Em 1998, bateu seu recorde: 32 festas de peões. Quatro meses de férias atrasadas foram utilizados para as viagens país afora atrás de seu maior hobby que, inclusive, não permitiu que se casasse. “Gosto de ter liberdade e não teve como encaixar uma esposa e filhos neste mundo tão envolvente”, revela, ele que fez de peões, tropeiros, locutores e apreciadores de rodeio uma verdadeira família.
Um grupo numeroso, diga-se de passagem. Estima-se que, em todo o território nacional, existam 30 milhões de aficionados pelos rodeios, com predominância de jovens entre 17 e 37 anos. Um público heterogêneo, composto por famílias de origem rural, pessoas de classe média do interior do Brasil e gente que nunca visitou uma fazenda ou andou a cavalo, mas que frequenta as festas de peões em busca da diversidade de atrações. “O público do rodeio é sete vezes maior que o do campeonato brasileiro de futebol”, informa Roberto Vidal, presidente da Confederação Nacional de Rodeio (CNAR), entidade que congrega 15 federações estaduais e é responsável por fiscalizar os principais eventos do país.
Hoje, no Brasil, são realizados mais de 1,8 mil rodeios por ano. Segundo dados da CNAR, eles movimentam cerca de 3 bilhões de dólares e geram aproximadamente 300 mil empregos diretos e indiretos. As festas de peão, assim como o réveillon e o carnaval, integram o calendário oficial de eventos da Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) e são divulgadas no exterior. E pensar que estes mega eventos começaram, ainda na primeira metade do século passado, como simples atividades de entretenimento das comitivas de boiadeiro em vários municípios do interior do país.
De caipira a country
O principal evento, sem dúvida, é Barretos, a chamada capital do rodeio brasileiro. Foi na cidade paulista de 113 mil habitantes que a festa de peão como atualmente é conhecida teve início, se desenvolveu e vem sendo aperfeiçoada, ano a ano. Barretos era rota de passagem e descanso de comitivas de boiadeiros e sediava o maior frigorífico nacional. Para passar o tempo nestes encontros, a peãozada se divertia competindo para ver quem era melhor com o laço ou quem conseguia parar mais tempo no lombo de um cavalo chucro. As provas foram atraindo mais espectadores e tropeiros, até que, em 1947, no centro da cidade, ocorreu o primeiro rodeio, dentro de um simplório cercado com arquibancadas. Oito anos depois, um grupo de jovens locais criou o clube Os Independentes, que organiza a Festa do Peão de Barretos até hoje.
O modelo tradicional de rodeio perdurou até os anos 1980, quando a americanização tomou seu lugar. E, de caipira, Barretos se tornou country. Nesta época, a montaria em touros entra para o calendário oficial, as premiações para os competidores aumentam, as atividades artísticas se diversificam, os patrocínios crescem e o evento não pára de se desenvolver e inovar, ostentando números impressionantes. Na última edição, finalizada dia 29 de agosto, a 55ª Festa de Peão da cidade, o maior evento do gênero na América Latina, trouxe 600 atletas de dez países para as seis modalidades em disputa. Os competidores campeões levaram para casa meio milhão de reais em prêmios e cerca de 900 mil pessoas visitaram a festividade nos seus 11 dias.
Mais de cem shows foram realizados, entre música sertaneja, country, forró, axé e eletrônica. As novidades ficaram por conta da presença da cantora norte-americana Mariah Carey, e da escola de samba Unidos da Tijuca, campeã do carnaval carioca em 2010. Numa performance exclusiva, 400 componentes da agremiação tocaram músicas sertanejas no ritmo do samba, com direito a show pirotécnico e espetáculo de ilusionismo. Em Barretos as novidades surgidas acabaram por se espalhar Brasil afora. A festa do peão de Rio Verde, em Goiás, é uma das que se inspirou no estilo de montaria de bois consagrado na cidade paulista. E foi premiada. Literalmente. Seu rodeio foi considerado pela CNAR o melhor do país por sete vezes.
Depois que chegaram ao Brasil, os rodeios em touro se tornaram os preferidos do público, tanto que em certos locais os cavalos não fazem mais parte das atrações, como em Rio Verde. Isso para lamento dos amantes dos rodeios tradicionais, como a comunicadora Ana Paula Cegantini, de 32 anos, que pelo amor aos equinos se tornou uma aficionada pelas montarias. Sempre trajada no estilo country e munida da inseparável câmera fotográfica, com a qual vai às festas e fotografa cavalos, possui acervo incontável. Só no último rodeio de Jaguariúna (SP), Ana Paula fez mais de mil fotos. “Eu assisto ao rodeio pela lente da câmera.”
Os profissionais do rodeio
Se os imponentes e caros animais se destacam nos rodeios, que dirá os peões, as grandes estrelas da festa. Dentro e fora das arenas, são tratados pelo público como celebridades. Os campeões, claro. O grosso da peãozada, no entanto, segue sonhando em se manter durante os 8 segundos em cima do touro para ganhar os carros e motos das premiações. É este tempo perigoso, em que se tem de permanecer agarrado ao animal só com uma mão, que separa o peão anônimo (que precisa fazer bicos tratando dos bois ou montando arenas para pagar suas despesas) dos vencedores, com patrocínio e conta bancária em dólares. Caso dos paulistas Adriano Moraes, um dos mais famosos do Brasil, e Guilherme Marchi, que em 2008 embolsou 1 milhão de dólares ao vencer o maior torneio dos EUA e se tornar o melhor peão do mundo.
É no lugar destes peões que o jovem David Alves de Deus pretende chegar. “Quero atingir o ponto mais alto como caubói”, afirma o goiano de 21 anos, campeão do último rodeio de Goiânia, com uma premiação de R$ 100 mil em quatro anos como profissional e nenhuma lesão. Considerado revelação no estado, vem ganhando torneios menores, caminho natural para ser convidado a disputar eventos de renome. Se depender da aposta de quem é do ramo, sua carreira será promissora. “Se for para Barretos, ganha”, acredita Adriano Braga, produtor artístico da Cia. João Palestino, conhecida empresa de organização de rodeios. Responsável por preparar a coreografia das aberturas, montar cenários, selecionar animais, o produtor artístico é quem escolhe também os competidores.
Por trás do sucesso dos caubóis, no entanto, há um número grande de profissionais de suporte que garante a beleza e a eficiência do espetáculo. O tropeiro é o dono dos animais do rodeio, bois e cavalos treinados para saltar e dificultar a vida do peão. O juiz é a autoridade máxima dentro da arena, é quem dá as notas e pode desclassificar competidores, em caso de irregularidades. Os salva-vidas e madrinheiros (entram na arena à cavalo e ajudam a retirar o boi) são os responsáveis pela segurança do competidor. Já a animação prévia do público, a narrativa do que ocorre durante as montarias, a apresentação dos artistas, tudo isso está nas mãos, ou melhor, na voz, do locutor. Com frases de efeitos, versos matutos e repertório musical apropriado, a cargo dos sonoplastas (o braço direito dos locutores), o profissional agita e emociona quem está nas arquibancadas.
“Aôôô lasqueira no pé da goiabeira. Tem dia que é bão, mas tem dia que é mió ainda”, costuma recitar, logo no início de sua participação, Rogério Magalhães, autointitulado "locutor universitário", por sua afinidade com este público. Carismático e bem-humorado características essenciais à função, Magalhães vive a mesma vida errante de qualquer profissional de rodeio. Aos 27 anos, casado e com um filho de 3 anos, viaja apresentando rodeios de quarta a domingo, entre 18 horas e 5 da manhã, ou animando eventos sertanejos no mesmo horário corujão. “Minha casa é o hotel. Em casa eu sou visita.”
Mestre do berrante
O som do berrante que na lida caipira puxava a boiada e orientava os peões, agora, no americanizado mundo country, segue a trilha da extinção. O instrumento, feito de chifre de boi, emite sons graves e agudos e seus toques sinalizam algo importante aos tropeiros: hora do almoço, estouro de boiada, perigo no caminho etc.
Antigamente, quando os bois eram levados aos frigoríficos pela estrada por valentes peões, a comunicação com o berrante era fundamental para o sucesso da jornada. “Hoje, os bois tão tudo no caminhão e o berrante virou enfeite de parede”, constata Zé Capeta, o mais famoso berranteiro do país, 67 anos de idade e 54 de lida com o instrumento.
Segundo conta, muitas festas de peão não trazem mais o marcante toque do berrante em suas aberturas. Mas para quem ostenta no currículo a participação em oito novelas, no SBT, na Record e na Globo, não falta trabalho. “Sou o único homem que vive do chifre no Brasil”, diverte-se Zé, uma lenda da tradição caipira brasileira que, ao contrário de muitos , consegue se sustentar só com o ofício.
Em suas apresentações, entusiasma o público com proezas no berrante, como tocar samba e o hino nacional. Forte como um touro, bom humor intacto e uma barba de 40 anos sem cortar, o berranteiro curte os novos momentos de fama com a reprise da novela Ana Raio e Zé Trovão, de 1990, em cuja trama representou o próprio Zé Capeta. “Antes eu fazia um show por semana. Agora, tô fazendo três”, revela ele, que aproveita os holofotes para arrecadar um extra vendendo CDs de sua autoria, com versos, toque de berrante e sua marca registrada, a risada. “Ela ficou conhecida em tudo que é lugar, em Portugal, na Espanha; na rádio daqui, eles põem pro povo rir da minha risada”.
Foto: André Monteiro