Nº 21 mai/jun 2013

Finanças

Por sua conta

Trabalhar por conta própria é a realidade da tradutora juramentada e produtora cultural Luciana Naves há quatro anos. Parte de uma estatística que tem crescido sem parar nas duas últimas décadas, ela não encara o trabalho autônomo como uma fase intermediária entre o desemprego e emprego formal. Ao contrário. Orgulha-se de ter se demitido de uma instituição de ensino para iniciar seu voo solo. “Me sentia subaproveitada e muito infeliz. Tinha um bom salário, mas não me arrependo”, diz ela, admitindo, entretanto, que um enorme aprendizado na sua atual situação profissional é manter o equilíbrio das contas, sem desesperos no fim do mês.

Luciana acredita, contudo, que encontrou a maneira correta de lidar com a “instabilidade” financeira do autônomo e de ter as contas sob controle. “Uso uma planilha de gastos bem simples. Agrupei as despesas e as dívidas por gênero: telefone, internet, lazer etc. Desta forma, tenho total controle sobre meus gastos e consigo ver, inclusive, onde estou gastando mais ou menos”, explica, lembrando que outro item que deve ser considerado pelo profissional é ter sempre disponibilidade. “Leva um tempo até conseguirmos formar uma boa clientela. É preciso persistência”, afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que cerca de 20% dos trabalhadores do Brasil são autônomos. Ao todo, são mais de 4 milhões de pessoas com este perfil nas seis maiores áreas metropolitanas do país. Os desafios do profissional são muitos, mas o maior deles é mesmo o controle das finanças, por causa da variação do rendimento mês a mês. Então, disciplina e equilíbrio nos gastos são fundamentais para aqueles que conseguem aproveitar as vantagens de ser dono da própria rotina.

Tudo à vista
O vendedor Gilson de Moura é “autônomo de carteirinha”, pois está nessa desde 1986. “Faço vendas por comissão. A porcentagem que recebo das empresas fica entre 3% e 5%”, conta Gilson, explicando que tem que lidar com o fato de que receberá esses valores num prazo de 60 ou até 90 dias depois da transação. Ele tem domínio sobre seus gastos usando a agenda como guia. “Não uso planilha, devia até usar, mas faço anotações na agenda e, assim, consigo estabelecer uma média das vendas feitas e quanto receberei por elas”, explica.

Gilson atua no setor de alimentos e constata que seu trabalho sofreu muitas mudanças nos últimos anos, especialmente na concorrência, o que, é claro, influencia nos ganhos e nas estratégias de sobrevivência. “No passado, era mais tranquilo. Onde três vendiam, hoje 50 querem vender. O vendedor autônomo está mais exposto às oscilações do mercado”, argumenta. Para ele, uma boa dica para o autônomo é fugir dos compromissos financeiros a longo prazo, dando preferência às compras à vista. Essa é também a filosofia comercial de Luciana que, aos 28 anos, nunca teve e nem pretende ter cartões de crédito ou cheque.

“Todas as minhas compras são à vista. Comprei meu carro assim. Acho um absurdo arcar com prestações com  juros altos”, assinala a tradutora. Há quase dois anos, ela adotou um plano de previdência privada e defende: “Considero fundamental para o autônomo se preparar para o futuro”. Outra postura importante, avalia Luciana, é estar sempre atento quanto às oportunidades. Recentemente, ela integrou a equipe de  produção de um festival de jazz e, numa conversa casual com os donos do hotel onde se hospedaram os artistas do evento, conquistou mais um trabalho de tradução. “O hotel precisava de alguém para fazer a versão em espanhol do próprio site”, lembra.

Finanças em forma
Há pouco mais de um ano, o administrador e pós-graduado em Economia André Massaro resolveu criar  o programa de desenvolvimento financeiro Money Fit (www.moneyfit.com.br). “O nome fit remete à palavra fitness, muito associada às dietas alimentares”, explica. Por meio de cursos, palestras e, mais recentemente, um livro, o especialista dá dicas e fornece orientações para pessoas que desejam manter as finanças em forma. “Em meu livro, falo bastante dos profissionais que não possuem um fluxo de caixa regular. Com algumas dicas básicas, é possível contornar essa dificuldade e viver com mais tranquilidade”, garante.

Segundo o economista, a primeira e mais óbvia dica é fugir de financiamentos e compras a prazo, tal como fazem Gilson e Luciana. “Com as taxas de juros horríveis praticadas no Brasil, você compra um carro e, no final do financiamento, já pagou por três”, diz Massaro. Outra dica importante do especialista é estabelecer um fluxo médio de gastos, baseado no histórico financeiro do trabalhador. “Algumas vezes o profissional ganha muito dinheiro num mês e passa o seguinte sem ganhar nada. Estabelecendo uma média, ele consegue distribuir melhor seus rendimentos”.

Para tanto, Massaro considera o uso da planilha fundamental, já que ela fornece uma visão panorâmica da vida financeira do trabalhador. “Não devemos confiar na memória, ela pode nos trair. O preenchimento da planilha permite, inclusive, um planejamento de gastos futuros”, alerta.
O administrador aconselha que o autônomo sempre busque maneiras de incrementar sua renda. “Procurar bons investimentos, fazer reserva financeira e se preocupar com capacitação profissional é uma forma de melhorar os rendimentos”, pontua.

Render o dinheiro
Massaro, porém, não é partidário dos planos de previdência privada. Segundo ele, há formas mais simples de investir e fazer render seu próprio dinheiro. “O que um fundo de previdência faz, qualquer pessoa pode fazer, porque só são necessários conhecimentos básicos de finanças. Existem fundos de ações que permitem começar seus investimentos com apenas R$100”, orienta, ressaltando que o futuro investidor deve se informar sobre a situação da empresa em que pretende investir. O site da Comissão de Valores Mobiliários (www.cvm.gov.br) é uma boa referência, porque, além de orientações, divulga a situação de todas as empresas do país que operam no setor.

Além do controle nos gastos, precaução e muita disposição, a tradutora e produtora Luciana acredita que manter o pensamento positivo é fundamental para o autônomo. “A pessoa não pode ficar desesperada e nem ser derrotista quando o trabalho não pintar”, aconselha. “Eu busco meu espaço, faço meu horário e, às vezes, ganho muito mais do que um trabalhador de carteira assinada. Tem que ter coragem para largar uma vida metódica”, ensina. Também Gilson ressalta que a “carreira solo” tem seus problemas, mas aponta para os benefícios. “É muito bom ter liberdade de horário e viver um cotidiano sempre instigante. Algumas vezes, os grandes negócios surgem de onde ninguém espera”, salienta.
 

Por sua conta Revista MRV

Luciana só faz compras à vista e foi assim que adquiriu seu carro


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