Nº 21 mai/jun 2013

Malas Prontas

Mundo Afora

Quem já viajou para se hospedar na casa de um amigo sabe que nenhum passeio se iguala à experiência de conhecer uma cidade guiado por um “nativo”, alguém que conhece os detalhes que quase nunca estão nos guias ou nos mapas turísticos.

Com o lema “Criando um mundo melhor, um sofá de cada vez”,  é isso que a comunidade virtual CouchSurfing – expressão que pode ser livremente traduzida como um “surfe de sofás” – oferece a seus membros, uma imensidão de gente. O projeto, criado em 2003, tem cerca de 2 milhões de usuários, espalhados por 69 mil cidades de 230 países diferentes (inclusive na Antártida!), falando 302 idiomas.

O funcionamento do projeto é simples: você se cadastra no site (www.couchsurfing.org) e pode começar a surfar sofás alheios pelo mundo afora. Basta procurar os membros que moram na cidade para onde você quer ir, encontrar aquele com o perfil que mais te  atrai e  entrar em contato solicitando hospedagem.

A recíproca é totalmente verdadeira. Você pode também receber, no seu sofá, visitantes dos mais diversos pontos do planeta, mas não é obrigado a hospedar ninguém. Quando se cadastra, diz se sua casa está ou não disponível para receber visitantes ou se aceita apenas sair para tomar um chopp ou um café com o viajante para conversar, dar dicas sobre a cidade e mostrar lugares interessantes.

Amizades

O serviço é gratuito, mas os surfistas lembram que o mais importante não é ter um lugar onde dormir sem custos na sua viagem, mas sim a rica experiência que o intercâmbio pode trazer. “É possível achar um albergue por um preço bem razoável em qualquer lugar que você vá. Mas o legal é estar na casa de alguém local, saber como ele vive, dividir o cotidiano”, conta o radialista Rafael Puetter, de 24 anos.

Membro do CouchSurfing desde 2007, Rafael já se hospedou com italianos e argentinos, e recebeu turistas suecos e americanos em sua casa. “Acho que conheço umas 20 pessoas pelo mundo afora por causa do CouchSurfing, e de algumas delas fiquei bem amigo. Eu posso não falar constantemente com elas, mas são pessoas que compartilham minha paixão por viagens. Então, estamos sempre tentando nos encontrar em alguma parte do mundo”, conta.

Assim foi, por exemplo, com a sueca Marie, que Rafael hospedou em sua casa, no Rio de Janeiro. Os dois voltaram a se encontrar em Buenos Aires, ambos surfando sofás argentinos, e agora se viram de novo em Berlim, onde Rafael está morando.

O radialista conheceu o CouchSurfing quando fazia intercâmbio na Áustria. Sua vizinha era uma finlandesa, sempre de malas prontas. Foi ela quem lhe apresentou   o projeto. Juntos, fizeram a primeira viagem dele surfando sofás  para Nápoles, na Itália. “Antes dessa primeira viagem, me deu medo. Brasileiro desconfia de tudo. Eu pensava: ‘Quem é esse cara que vai me hospedar’? Mas foi uma experiência incrível!”, relembra.

Segurança
A preocupação com a segurança não é exclusividade de Rafael. A própria organização (não governamental e sem fins lucrativos) que administra o site a considera como um dos itens fundamentais para que as experiências dos membros sejam positivas. Para isso, disponibiliza uma série de mecanismos de verificação e checagem dos participantes do projeto. E os novos membros são logo avisados: não se trata de um site de relacionamentos românticos, mas sim uma rede de pessoas interessadas em descobrir novas culturas, trocar experiências e conhecer o mundo.

Apesar dos mecanismos de segurança, a forma mais garantida de conhecer de antemão seu hóspede ou anfitrião é mesmo a troca de informações entre os membros. Cada participante do projeto tem seu perfil disponibilizado. Nele, outros membros podem escrever referências, contando as experiências – positivas e negativas – que tiveram com aquela pessoa.

Bem informados

“É um sistema muito legal de avaliação das pessoas. No boca a boca, vai se criando um universo de referências, e quando você escolhe alguém para receber em casa ou pede o sofá de alguém,  já sabe se é uma pessoa interessante, que tem a ver com você, com boas referências de outros couchsurfers”, explica a produtora cultural Camila Nunes de Freitas, que faz parte do CouchSurfing há seis meses. Ou, como explica o próprio site, é como conhecer o amigo de um amigo.

E o sistema parece dar resultado. Numa pesquisa realizada pelo projeto, os surfistas relataram mais de 5,8 milhões de experiências positivas, o que representa a impressionante cifra de 99,7% das avaliações. A mesma pesquisa revelou ainda que, desde 2004, 1,9 milhão de novas amizades foram criadas através do site, mais de 120 mil delas descritas pelos participantes como de grande proximidade.

Camila faz parte dessa estatística. Quando entrou para o site, estava morando em Peruíbe, no interior de São Paulo, e se sentia isolada. “Quando comecei a receber gente do projeto, era como se eu recebesse o mundo de novo”, diz. A produtora cultural hospedou um canadense que estava viajando de moto pelo país e uma argentina, que se tornou uma grande amiga. “Às vezes, eu os levava a lugares que eram os mesmos que eu ia sempre, mas com eles eu via tudo com outros olhos, os olhos de quem está conhecendo, descobrindo”, avalia.  

Mente aberta

Mas Camila lembra que, para entrar no site, é preciso estar aberto à novas experiências – o que pode incluir até algumas “roubadas”, como dificuldades de comunicação com o hóspede ou anfitrião em função da língua, ou convites para eventos nada interessantes. “O que o CouchSurfing promove é a relação entre as pessoas, e isso inclui uma dose de responsabilidade em relação ao outro, o respeito à ordem e às regras da casa em que você está, e a abertura para outros tipos de vida, outros valores”, explica.  

Malas prontas para o México, Camila vai surfar o sofá de um novo amigo. Mesmo com a possibilidade de uma ou outra pequena frustração no meio do caminho, ela sabe que o CouchSurfing é uma experiência capaz de mudar não apenas a forma como as pessoas viajam, mas também como elas se relacionam com o mundo.
É ou não é uma viagem?

 


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