Nº 21 mai/jun 2013

Comportamento

Sem pompas e com distinção

Já não se fazem casamentos como antigamente. Ou, pelo menos, já não se fazem mais todas as festas de casamento como antigamente. E essa constatação não tem nada a ver com as mudanças na relação entre homens e mulheres, nem com a recém-aprovada união entre homossexuais, mas sim com a transformação das festas, que ganharam celebrações inovadoras e até inusitadas.

Claro que ainda não são exatamente comuns casamentos como o de Marcelo Basso e Denise Flores. Polêmico, o casal do Rio Grande do Sul ganhou as páginas dos jornais pela escolha do traje do casório. Os noivos e convidados se fantasiaram como os personagens da animação Shrek. Mas é verdade que, aos poucos, a comemoração do casamento ganha contornos pouco tradicionais.

O fato é que muitos jovens casais acham que as festas, sempre muito iguaizinhas, acabavam se tornando uma chatice. Temem, também, que o sonho dourado se transforme em pesadelo, com as inúmeras dívidas contraídas para a comemoração.

“Todo casamento é a mesma coisa: tocam as mesmas músicas, servem os mesmos salgadinhos, colocam as mesmas luzinhas brilhantes na pista de dança. Eu queria sair da mesmice, queria um ambiente descontraído em que as pessoas pudessem se sentir realmente à vontade”, conta o vendedor Wagner Alvarenga dos Santos. Ele se casou em novembro do ano passado com a professora Flávia de Paiva Guimarães. Para inovar e diminuir os custos, a solução foi celebrar fora das tradicionais casas de eventos, e até fora da cidade. Cariocas, eles se casaram em Parada Modelo, no interior do estado do Rio, num sítio cedido por um amigo.

“Deu trabalho, porque tivemos que fazer sozinhos, sem uma empresa que cuidasse de tudo. Mas ficou exatamente do jeito que a gente queria, e muito mais barato”, afirma Wagner. Ele emagreceu seis quilos na  semana do casamento, mas conseguiu baixar consideravelmente os custos da festa. Com mais de 400 convidados, bebida farta, churrasco e música ao vivo com um grupo de samba, o casal gastou cerca de R$15 mil na celebração; uma festa similar orçada numa empresa  especializada não sairia por menos de R$ 50 mil.

Inovação

Um casamento “a la Shrek” pode ser uma extravagância, mas, no quesito inovação, estão na moda várias alternativas à festa com valsa e champagne tomada com os braços cruzados: casamentos temáticos, comemorações em bares ou boites, festas despojadas que proíbem a entrada de homens de gravata e mulheres de salto alto e recepções  com detalhes que tornam o ambiente íntimo e pessoal.

No casamento do diretor de imagem Bernardo Raposo e Mariucha Machado, em outubro passado, em Valença (RJ), a festa tradicional era o desejo dos pais da noiva. Mas Bernardo queria algo diferente, que  desse à comemoração a cara dos quatro anos de namoro. Daí, o casal apostou nos detalhes, que surpreenderam os convidados.

Bernardo havia pedido a mão de Mariucha numa noite de lua cheia e, por isso, mandou plotar uma grande lua para ter a imagem no salão de  festas. Nas já tradicionais havaianas de lembrança, cada pé trazia uma mensagem: de Bernardo para Mari, e dela para ele. Mas o difícil mesmo foi conseguir o carrinho de churros que entrou no meio da pista de  dança. “A gente comia muitos churros no tempo de namoro. Deixei a mãe da Mari louca para conseguir encontrar um carrinho de churros em Valença, porque eu queria brincar com isso”, lembra.

Sonho planejado


No casamento de Wagner e Flávia, a inovação chegou ao vestuário. No lugar da tradicional definição do traje mais adequado à cerimônia, o convite do casal trazia uma determinação explícita: nada de trajes  formais.

Esse foi apenas mais um dos inúmeros detalhes do dia, dispostos por Wagner numa planilha, para que os noivos não deixassem nada de fora e ainda pudessem pesquisar preços e buscar alternativas. Na prática, eles aprenderam que o segredo para o sucesso de uma festa de  casamento está no planejamento. De acordo com o educador financeiro Reinaldo Domingos, presidente do Instituto Dsop de Educação  Financeira e autor do livro Terapia Financeira, a realização de um casamento depende de um diagnóstico profundo, que leve ao planejamento e execução do sonho.

Para começar a pensar no casório (o que, segundo Domingos, deve ser feito com pelo menos 24 meses de antecedência), o casal precisa se  fazer uma série de perguntas, cujas respostas determinarão a  realização e dimensão da festa. A primeira pergunta é a base de todas  as outras: os noivos estão endividados, equilibrados financeiramente ou são investidores? Começar a vida a dois com dívidas é mau sinal para o casamento. Só com uma situação estável é possível pensar na celebração do grande dia.

Depois de “juntos para sempre”, onde os noivos vão morar? Vão alugar ou comprar um imóvel? Como vão mobiliá-lo? Eles pretendem viajar? O que é mais importante: festa ou lua-de-mel? Se for festa, quanto ela vai custar? Para quantos convidados? Como será?

Ao responder essas perguntas, o casal pode determinar suas prioridades e estabelecer os limites do seu sonho. A professora Aline Simões David está de casamento marcado para setembro. Ela quase desistiu da festa, numa escolha entre celebração e moradia: “Sempre sonhei em me casar e fazer uma grande festa, mas decidimos comprar uma casa e não podíamos arcar com a festa e as prestações. Mas meus pais sabiam que isso era algo que eu sempre desejei, e agora vamos ganhar a festa de presente”, conta ela.

Em vez das tradicionais lembrancinhas de casamento, os convidados de Aline ganharão um leque personalizado. “Estou saindo do tradicional, e ainda resolvo um problema, já que no salão que alugamos para a festa não há ar condicionado”, explica.

Lua de mel

As respostas às perguntas do especialista podem ainda ajudar o casal a solucionar mais de um problema, e de uma só vez. Foi o que aconteceu com Clara Rocha e Marcos Santos. Eles se casaram em maio do ano passado, queriam tanto a festa quanto a viagem de lua de mel. Resultado? Pagaram pela festa, e deixaram que os convidados pagassem pela viagem.

A lista de presentes foi coordenada por uma agência de viagens e, em  vez de panelas ou liquidificadores, osdois ganharam passeios, diárias e jantares na Argentina, para onde embarcaram logo depois da festa. Hoje, muitas agências já descobriram o filão e criaram listas de casamento com cotas de viagem. União perfeita que pode fazer toda a diferença!

Luciana Julião

Sem pompas e com distinção

Casamentos comandados pelos próprios noivos viram moda


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