Bruna Lombardi
A fala suave, porém firme, revela a tranquilidade de quem sabe muito bem a que veio. Grande no nome, Bruna Patrizia Maria Teresa Romilda Lombardi é altiva nas convicções. Filha do cineasta italiano Ugo Lombardi e da atriz austríaca Yvonne Sandner, desde menina não tinha dúvidas de que havia nascido para as artes.
Sua estreia na televisão foi em 1977, na novela Sem Lenço, Sem Documento, pela TV Globo. Na mesma emissora, Bruna fez, talvez, seu mais importante papel na telinha: o memorável personagem Diadorim, na minissérie Grande Sertão: Veredas.
Mais conhecida pelo público pela carreira de atriz na TV, ela tem se aventurado como roteirista e produtora de cinema. A comédia Onde está a felicidade? estreou nas telonas em agosto, numa volta festejada de Bruna e cheia de glamour, com grande repercussão. O filme conta a divertida história de Theodora, uma chef de cozinha interpretada por Bruna que, após perder marido e trabalho, resolve refletir sobre seus dilemas e conflitos numa peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela.
Terceiro roteiro filmado de Bruna Lombardi – os primeiros foram Stress, Orgasms and Salvation (2005) e O Signo da Cidade (2008) o longa-metragem é uma produção em família: ela atua, roteiriza e produz; o marido, o ator Carlos Alberto Riccelli, dirige; e o filho, Kim, é assistente de direção.
A veia literária deságua nos oito livros já publicados, entre eles, três de poesia e dois romances. Bruna vive há dez anos entre São Paulo e Los Angeles. Longe dos holofotes, curte anonimamente a vida ao lado da família.
Revista MRV: Depois de lançar um drama em 2008, O Signo da Cidade, você voltou às telonas este ano com Onde está a felicidade? Por que uma comédia?
Bruna: Com o Signo da Cidade, viajamos para muitos lugares pelo mundo inteiro. O filme ganhou onze prêmios, inclusive internacionais. E em todos os lugares, independentemente do país, da nacionalidade, do credo, as pessoas choravam, se comoviam. Algumas me abraçavam comovidas quando eu estava na sessão. Foi então que percebi que a emoção não tem fronteiras. Todo mundo é muito parecido emocionalmente. Então, veio esse desejo de fazer as pessoas rirem depois de ter feito as pessoas chorarem.
Onde Está a Felicidade? é um filme colorido, alegre e descomplicado. É mais fácil agradar o público brasileiro com este tipo de produção?
Eu acho que você agrada mais gente. A vida está tão abarrotada de notícias ruins, de dramas do dia a dia, tão conturbada por uma série de questões... Vemos tanta coisa do mal por aí, que uma comédia do bem, que faça bem às pessoas, que deixe as pessoas mais felizes, é muito estimulante para todos. O sucesso do filme se explica muito em função disso.
O filme foi recebido pelo público como vocês esperavam?
Não. Muito mais! Porque você nunca sabe se as pessoas vão rir, gostar, se divertir. E foi só na primeira sessão com o público, em Paulínea (Festival de Cinema de Paulínia - SP), em um teatro de 9,5 mil pessoas, que eu tive essa ideia. Eu estava bem nervosa, confesso. E ver aquele público rolando de rir, aplaudindo muito, às vezes durante a própria sessão... Ganhamos, no Festival, o prêmio de melhor longa de fiçcão pelo júri popular.
Onde está a Felicidade? é uma co-produção Brasil-Espanha. Quais são os desafios de uma produção entre dois países?
São enormes. Todo tipo de desafio. Desde a logística até a formação de equipes gigantes. Eram 300 pessoas de duas nacionalidades se encontrando, tendo que se dar bem com costumes diferentes. Estávamos enfrentando algo que não sabíamos o tamanho. E talvez, se soubessemos, nem faríamos (risos). Mas deu tudo tão certo. O filme foi tão abençoado. Até pelo tempo... Onde sempre estava previsto chuva, abriu o maior sol.
É a terceira vez que você é dirigida no cinema pelo seu marido, Carlos Alberto Ricelli. Como é a sintonia entre vocês quando o assunto é trabalho. É a mesma da vida pessoal?
Misturamos muito tudo. E acho que a vida da gente – trabalho, amigos, filho, casa, cachorro, planta – é tudo uma coisa só. Trabalhamos com o que gostamos, com as pessoas que amamos. Fazemos realmente o que queremos fazer e o que achamos fazer bem para as pessoas. E isso traz algo muito bom para nossa relação. Nos unimos mais, enfrentando dificuldades, desafios. Às vezes, brigamos. É normal. Todo mundo briga. O importante é que temos uma missão com nosso trabalho, e isso é maior que qualquer coisa. Com certeza, nosso processo de trabalho é contínuo. Mas a vida é isso. É trabalho. Estamos sempre aprendendo e nos dedicando a algo para nos melhorar e melhorar o que estamos fazendo.
A dobradinha em família também aconteceu no Signo da Cidade. O que amadureceu no trabalho de lá para cá?
Vamos aprendendo pra caramba pelo caminho. Vamos solidificando conceitos, aprendendo a não repetir os erros. Os caminhos são sempre uma lição, um aprendizado. O Signo da Cidade era um filme menor. Já o Onde está a felicidade? é um filme muito grande. Então, toda parte técnica e humana representou um salto qualitativo muito grande na nossa vida.
Existem outros projetos em família para o cinema?
Estamos com novos projetos sim. Mas ainda não posso falar. Assim que puder eu adianto algo pra vocês.
Em Onde está a felicidade? você foi roteirista, protagonista e produtora. Como conseguiu conciliar todas estas funções?
Essas três funções e outras que exerço no dia a dia são importantes e fazem parte de mim. Eu acho que consigo fazê-las, porque exerço uma de cada vez.
Qual delas é a mais desafiadora?
Os desafios chegam com a mesma intensidade. A diferença, por exemplo, é que os de roteirista quase sempre você tem que resolver sozinha e os outros você resolve em equipe.
Com tantos trabalhos, sobra tempo para algum hobby? Quais são seus afazeres prediletos quando está em casa?
Os hobbies que eu tenho são sempre ligados à natureza. Eu planto muita árvore. Nós plantamos muitas árvores. Temos mania de planta, de jardim, de coisas que ajudem a natureza. Eu acho que temos uma missão de plantar, assim como outros plantaram pra nós, para continuar a corrente e despoluir esse planeta.
Como você tem dividido o seu tempo entre Brasil e EUA?
Eu sou uma pessoa itinerante. Ano passado, por exemplo, passamos a maior parte do tempo na Espanha. Vamos onde o trabalho nos leva, onde a vida nos leva. Eu aprendi a estar na estrada. O próprio Onde está a felicidade? é um road movie, um filme na estrada.
Você se mudou para Los Angeles para estudar. Havia também um desejo de ter uma vida mais anônima, longe dos holofotes?
Sem dúvida. É bom você conviver com sua normalidade, com sua vida verdadeira, com seus valores verdadeiros. Até para poder trazê-los, depois, na sua vida pública, sabe? Pra gente ter um norte, se orientar, saber o que quer...
As novelas fizeram você ficar conhecida do grande público. Você pretende atuar em novelas de novo?
Eu gosto muito de televisão. Gosto muito dos trabalhos que fiz em TV. Eu tive muita sorte de fazer trabalhos que permanecem, que admiro, que fico feliz de ter participado. E, sempre que me convidam, eu considero, mas é uma questão de agenda. O trabalho que estamos fazendo requer muito tempo, é de muita profundidade. Mas eu gosto de televisão, eu não excluo jamais voltar.
Você escreve desde pequena. De onde vem esse gosto pela poesia, pelas artes em geral?
Nasceu comigo. Desde os 7 anos, aprendi que tinha vindo ao mundo para escrever e atuar. São as coisas que sei fazer, são as coisas que faço.
Onde busca inspiração para escrever suas poesias e roteiros?
Na vida, nas pessoas. Eu gosto muito de gente. Sou interessada nas pessoas. De verdade, sabe? Não em um contato superficial. Eu não gosto de nada superficial, gosto de contatos em profundidade, de conhecer as pessoas na alma. Os anônimos e os desconhecidos têm muito a dizer, muito a dar, e eu gosto disso.
Durante dez anos, você produziu e apresentou o programa Gente de Expressão, entrevistando grandes nomes e personalidades no Brasil e no mundo, como Dustin Hoffmann, Jim Carrey e Harrison Ford. Este seu lado profissional jornalista foi vencido pelo de atriz?
Quando trabalhamos num roteiro, automaticamente exercemos um trabalho jornalístico, porque você pesquisa muito, se interessa, é curioso. A curiosidade é um grande dom que uma pessoa pode ter. Ter curiosidade para estudar, para aprender mais. Então, acho que o desejo de saber mais nunca morre
numa pessoa.
Qual foi a entrevista mais marcante e por quê?
Todo o programa foi marcante na minha vida. Eu aprendi tanto, viajei tanto, conheci tanta gente interessantíssima, tantos países diferentes que, sem dúvida, isso marcou e me marca profundamente.
Aos 59 anos, você continua sendo reconhecida por sua beleza. Qual é a fórmula? Tem a ver com a felicidade?
Eu acho que tem a ver com a felicidade sim (risos). Temos que buscar a felicidade da gente e tentar também espalhá-la para os outros. Não adianta só você ser feliz, se o ambiente em que você vive, as pessoas à sua volta, no seu bairro, na sua cidade, na sua nação não estão. Temos que fazer um trabalho comunitário, nos interessarmos pelos outros, pelos bichos, pelas plantas. Eu acho que temos que ter uma vida não só voltada para si mesma, mas para o todo, porque você faz parte do todo, e o todo vai te fazer bem. O universo retribui aquilo que você generosamente distribui.
Seu casamento com o Ricelli tem 30 anos. O que fez essa relação tão duradoura?
O amor. É a única resposta.