Nº 21 mai/jun 2013

Saúde

Remédio da alma

Quem canta seus males espanta”. Leoni Maria Passos define dessa maneira as sessões de musicoterapia das quais participa com outras 11 mulheres, todas pacientes de câncer de mama. Elas se reúnem semanalmente na Associação Brasileira de Apoio aos Pacientes de Câncer (Abrapac) para tocar instrumentos, cantar e discutir seus problemas. Dito assim, parece apenas um grupo de amigas prestes a formar uma banda ou um coral, mas a verdade é que as sessões de musicoterapia vão muito além disso. “Através da música, cada uma trabalha suas próprias questões: o autoconhecimento, a doença, como ela mudou suas vidas e como superá-la e encontrar novas formas de viver”, explica a musicoterapeuta e psico-oncologista do grupo, Elisabeth Martins Petersen.
A utilização da música para fins terapêuticos é quase tão antiga quanto a própria humanidade. Há registros de documentos egípcios que já tratavam do tema, e, entre os gregos, Platão afirmava que a música é o remédio da alma. Mas a visão romântica da música do século 18 fez com seus princípios terapêuticos fossem abandonados. Foi apenas no século 20 que o tema ganhou uma área própria de estudos, a musicoterapia, com status de ciência. “A musicoterapia é reconhecida em quase todos os países e existe uma extensa bibliografia sobre o tema. Também no Brasil temos reconhecimento. Recebemos muitos pacientes indicados por médicos e  há até concursos públicos para a área”, explica a musicoterapeuta Ana Sheila Tangarife.

Faz bem

O musicoterapeuta precisa ter um conhecimento aprofundado de música. Por isso, os candidatos ao curso passam, além dos exames regulares, por provas de habilidade específica no momento do vestibular. Mas a graduação na área é um híbrido de música e ciência. Os alunos cursam disciplinas mais científicas, de áreas como psiquiatria, medicina, psicoterapia e psicanálise, e outras ligadas à área musical, como história, filosofia e psicologia da música e psicoacústica.
Já o paciente não precisa de nenhum conhecimento musical específico. Apenas é importante que ele goste de música. Nenhuma das pacientes do grupo de musicoterapia da Abrapac, por exemplo, tinha qualquer envolvimento com música antes de entrar para o grupo. Mas isso não importa. “Não tenho voz nem ritmo, mas canto assim mesmo e isso me faz muito bem. Eu estavacom depressão, com medo do fantasma da recidiva, mas depois que comecei com as sessões passei a me sentir melhor”, conta Sônia de Paula Vieira, a mais nova integrante do grupo. E ela completa: “As sessões são momentos de alegria e entusiasmo. Hoje já me pego cantando sozinha, em casa, coisa que eu não me permitia fazer antes”.

Benefícios

As pacientes da Abrapac também se apresentam esporadicamente, em eventos internos da instituição, como Natal e carnaval. Mas para elas esses eventos são apenas momentos de confraternização, e não um passo em direção à profissionalização. Afinal, elas estão mais interessadas nos benefícios terapêuticos que a música pode lhes trazer.
Que benefícios são esses? Enquanto falam da experiência nesses dois anos de musicoterapia, uma bolsa vai circulando pelo grupo. Cada uma escolhe um instrumento de percussão de dentro dela e, com a musicoterapeuta Elisabeth Petersen ao violão, começam uma dinâmica típica das sessões. “O que trabalhamos aqui?”, pergunta Elisabeth, cantando. Uma a uma, Regina, Solange, Maria, Leoni, Rosa, Amelita, Sônia, Nilcea, Lucy, Luzia, Nelma e Maria da Conceição vão respondendo, com improvisações cheias de ritmo e energia: “Confiança, equilíbrio, solidariedade, autoestima, autoconhecimento, esperança...”.

Saúde 3


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