Bolero Nordestino
Contemplar o pôr do sol, por si só, já é uma experiência emocionante. Se for à beira do rio e embalado pelos acordes de “Bolero”, a mais famosa composição do francês Maurice Ravel (1875–1937), é de arrepiar. São 17 minutos de pura magia, tempo em que, em um barco a remo, o saxofonista José Jurandy Félix percorre as margens do rio, enchendo a região com a música, enquanto o sol vai se deitando atrás da vegetação, colorindo o céu de amarelo, laranja e lilás. E foi praticamente no boca a boca, que Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa, na Paraíba, ficou famosa por ter um dos fins de tarde mais encantadores do mundo.
Há 12 anos, quando o sol se põe na pequena cidade, lá está Jurandy do Sax, atraindo moradores e turistas para presenciarem o entardecer, um espetáculo da natureza engrandecido pelo show que acontece na Praia do Jacaré, banhada pelo Rio Paraíba, que dali se encontra com o mar. A inspiração para incluir “Bolero” no cenário surgiu quando um casal, dono do único restaurante que havia na praia se reuniu com um grupo de amigos para escutar a trilha sonora de Retratos da Vida, filme de Claude Lelouch (1981), no qual a música de Ravel é parte triunfal.
Preservada
A partir desse dia, Jurandy passou a homenagear o pôr do sol com seu sax na praia fluvial do Jacaré. “Da primeira vez, senti um prazer enorme. As pessoas começaram a me pedir para tocar todos os dias e, de repente, me veio a ideia de tocar na água”, conta o músico. No seu barquinho, com roupas brancas e cabelos longos, o saxofonista já tocou a música mais de quatro mil vezes. “Sinto um frio na barriga até hoje, todas as vezes me emociono como se fosse a única, porque o pôr do sol nunca é o mesmo”, garante. A fama de Jurandy já atravessou mares. Em 2005, ele passou 10 dias em Paris a convite do governo francês, que soube do trabalho do saxofonista na Paraíba e reconheceu o seu talento. Na Cidade Luz, ele visitou o Conservatório Maurice Ravel e tocou “Bolero” ao lado do túmulo do compositor.
Mas bem antes disso, quando a novidade se espalhou na região nordestina, aos poucos a Vila do Jacaré começou a se formar ao redor da praia para atender os turistas que chegavam. Hoje, a comunidade participa do espetáculo mantendo lojas de artesanato, sorveteria e lugares que servem comida típica do Nordeste, como tapioca e acarajé. Mais de duas mil pessoas vivem em função da atração. Para preservar a região, a área ao longo do rio foi tombada pelo Patrimônio Histórico da Paraíba e nada mais pode ser construído lá.
Sem taxa
Quatro restaurantes ficam à beira do Paraíba e oferecem uma visão privilegiada, principalmente para quem senta às mesas do píer. Às 15h começa o movimento, e às 17h todos os bares já estão lotados de turistas à espera do pôr do sol, que acontece por volta das 17h30, variando de acordo com a época do ano. O aviso do início do espetáculo vem das caixas de som dos bares.
A dica é chegar cedo para conhecer a vila e a feira de artesanato, contemplar a beleza do lugar e comer um bom peixe ao molho de camarão, curtindo música ao vivo. Quem preferir pode assistir ao pôr do sol na vila, sem precisar pagar couvert ou consumir nos bares. A outra opção é fazer o passeio de barco, que percorre o rio e, no momento em que o sol se põe, se aproxima dos bares. As embarcações cobram uma média de R$ 25 por pessoa e também têm música ao vivo.