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01/10/2019

Capitalismo é visto por empresário como gerador de melhorias para a sociedade

Construtora investe em tecnologias que permitem reduzir os custos e o tempo de execução do projeto

A MRV, maior construtora e incorporadora residencial da América Latina, chega aos 40 anos. Com ações negociadas na bolsa paulista desde 2007, hoje a empresa é avaliada em R$ 6,88 bilhões. No segmento da baixa renda, sua participação de mercado chega a 59% e, nos últimos três anos, foram aportados em torno de R$ 580 milhões em obras de melhoria de infraestrutura no entorno de seus empreendimentos.

Até transformar a MRV em uma das três maiores construtoras do mundo, seu fundador e hoje presidente do Conselho de Administração, Rubens Menin, passou por muitos períodos de chuvas e trovoadas da economia brasileira. Chegou um momento em que a crise do país era tão profunda que, sem ter onde tomar recursos, o mineiro e seus sócios viram como única alternativa para a pequena construtora se desfazer dos próprios carros e das linhas telefônicas, que na época eram consideradas patrimônio e negociadas tanto no mercado formal quanto no informal. O dinheiro serviu para dar sustentação ao negócio até que os tempos bicudos passassem.

Mesmo muito antenado a novas oportunidades de investimento – o empresário é o principal acionista da CNN Brasil, que deve entrar em operação ainda neste ano – e atento a mudanças de comportamento do consumidor, Menin continua a apostar na perenidade da construção. Para o empreendedor, as pessoas sempre vão precisar de um lugar para morar. “Sou um otimista nato, o futuro sempre será melhor do que o passado”, diz o fundador da MRV. “Por isso, em vez de reclamar acredito em lutar, em fazer.”

Atualmente, os dados mostram que Menin está certo em manter a aposta na construção civil. Apesar do aumento de moradias, que resultou na expansão de construtoras como a MRV, o Brasil continua sob o peso do déficit habitacional. Faltam 7,78 milhões de unidades habitacionais, segundo levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). Diante do descompasso entre oferta e demanda, ter a casa própria ainda é um dos maiores sonhos da população.

A empresa chega aos 40 anos com novo posicionamento da marca, em um projeto desenvolvido pela Fundação Dom Cabral e pela Interbrand. A MRV passa, a partir de agora, a ser uma provedora de soluções para moradia, não mais uma construtora, conforme foi sendo sedimentado por seus executivos nos últimos anos.

Como plataforma habitacional, a MRV segue construindo imóveis e investindo em novas tecnologias que permitam reduzir o tempo de execução do projeto e os custos. Mas o novo posicionamento inclui também o reforço na área de locação. Neste ano, a companhia lançou um novo braço de negócios, a Luggo, responsável por construir e alugar apartamentos. Por essa razão é que, a partir de agora, a companhia mineira abandona o “engenharia” que usava em seu nome. O logotipo também passou por mudanças e foi construído na interseção dos elementos que formam o desenho da casa. Além disso, ganha agora novas cores.

Por outro lado, diz o empresário, há perspectivas de melhora não apenas para quem sonha financiar um imóvel, mas para os empreendedores que, hoje, ainda sentem no dia a dia os tropeços da economia brasileira. A principal razão para o otimismo de Menin é a redução consistente da taxa de juros do país, que tem barateado o acesso ao crédito. A seguir, trechos da entrevista.

História de quatro décadas
» Presente em 160 cidades e 22 estados, mais o Distrito Federal
» Cerca de 50 mil apartamentos entregues por ano
» Um apartamento entregue a cada dois minutos e meio
» Em torno de 2 milhões de empregos gerados
» Um a cada 200 brasileiros vive em um imóvel construído pela MRV

Havia um costume de se falar que a vida começava aos 40. Com a MRV chegando aos 40 anos, pode começar uma nova fase?

A gente começa uma nova fase todos os dias. Quem não faz isso em uma empresa fica pelo caminho, morre. O meu sonho de consumo é perenizar a MRV. Trabalhar com a casa própria vai permitir isso, porque há muito a ser feito não só no Brasil, mas no mundo. Neste momento em que a empresa chega aos 40 anos, estamos muito motivados, com a mentalidade de quem está em uma empresa nova, com as pessoas cheias de entusiasmo. O passado que construímos até agora foi bacana, mas temos de pensar pra frente.

 

Qual foi o momento mais difícil em quatro décadas de história?

Tomamos um chacoalhão em 1982, quando o país vivia uma baita crise. A empresa era bem menor e no Brasil não havia crédito. Eu e meus sócios tivemos de vender o carro e o telefone para fazer um pouco de dinheiro e colocar na empresa para que ela sobrevivesse ao momento tão difícil. Foi o jeito que encontramos para não sucumbir. Naquela época, eu fazia de tudo. Era engenheiro, era comprador, era cotador. Acabou sendo um bom aprendizado e tivemos coragem para continuar. Quando o mercado começou a se recuperar, estávamos praticamente sozinhos, muito à frente dos competidores. Conseguimos nos consolidar e logo nos tornamos a maior empresa de construção de Belo Horizonte.

E o momento mais marcante?

Foi em 2007, quando fizemos o IPO. Naquele momento, sentimos o reconhecimento do nosso trabalho. A empresa tinha 28 anos e aconteceu ali o maior IPO da indústria da construção. Foi um reconhecimento do que construímos nesse tempo todo. Hoje, temos quase 30 mil investidores no mundo todo.

 "O melhor momento para capturar oportunidades é quando a economia está fragilizada.  Na hora em que o ciclo positivo voltar, estaremos surfando no crescimento”

O que um empreendedor tem de fazer hoje para não sucumbir?

O Brasil venceu, em 1994, a guerra contra a inflação, mas não venceu a dos juros altos. Até hoje, esse é um dos desafios que o país enfrenta. Mas, neste ano, pela primeira vez vemos uma luz no fim do túnel quando falamos de juros. No Brasil, o empreendedor precisa ter muito cuidado com a eficiência financeira para não cair na ciranda dos juros. Todas as empresas que estão caindo não tiveram planejamento adequado e acabaram comprometendo seu caixa. Para mim, a grande notícia são os juros mais baixos. Ainda assim, acredito que alguns vão conseguir seguir adiante, outros não.

Como você vê o futuro da construção civil?

Ha 40 anos, dei sorte na minha escola, porque é muito difícil prever o que vai ocorrer no longo prazo. Muitas empresas, naquela época em que comecei a MRV, não conseguiram prever quais seriam as mudanças que veríamos. Foi assim que uma série de empresas dedicadas a determinados produtos, como o carburador, o CD, o fax e tantos outros itens do dia a dia deixaram de existir. Vejo que essas mudanças são cada vez mais acentuadas, o que torna cada vez mais difícil prever o futuro. Tudo cresce rápido, mas pode acabar rápido também. No caso da MRV, não vejo que a casa própria deixe de ser necessária. Pode até mudar o tipo, a sua concepção, mas sempre estará na vida das pessoas. É como estamos vendo com os carros e os aplicativos, que mudaram a forma como o transporte vinha sendo feito. Mas os carros continuam sendo necessários.

 "Sou um otimista nato, o futuro sempre será melhor do que o passado... Por isso, em vez de reclamar acredito em lutar, em fazer”

 
Qual seria o negócio que você começaria hoje?

O mundo vai se tornar um grande serviço, não tenho dúvida disso. Agora, por exemplo, estou entrando na área de comunicação, que também é serviço, é muito atual e bacana de fazer parte. Mas se tivesse de pensar no futuro, não pensaria em criar mais empresas, mas sim que as existentes hoje em dia estejam ativas e sejam perenes.

Se você tivesse direito a realizar um desejo no aniversário de 40 anos da MRV, qual seria o seu pedido?

O mundo está passando por um momento muito complexo, com uma população cada vez mais com dificuldade. Para mim, as empresas têm de fazer a sua parte. Por isso, acredito na necessidade de ser desenvolvido um novo mecanismo social, com o capitalismo na base de tudo, mas com o objetivo de gerar um benefício maior para a sociedade. Essa vai ser a essência do capitalismo a partir de agora. Não acredito que haja outra opção para os empresários. É o único caminho que temos hoje. É um desafio para o mundo, não só para o Brasil.


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